Não pense como mulher;seja racional e leia o texto.
A racionalidade não é uma questão de gênero. Por :Helena Ferreira ✍🏾
“Sem pensares que és mulher, avalia de forma racional.”
Desculpa, Manuel, mas vou ter de trazer esse absurdo para as minhas reflexões.
Eu gosto de pensar. Gosto de questionar, observar,gosto de acreditar que o meu cérebro foi feito para pensar, reflectir e gerar ideias e resultados.
Por isso, quando ouvi aquela frase, não terminou apenas a conversa que estávamos a ter. Terminou também uma parte do respeito que eu tinha por aquela pessoa.
Porque o que aquela frase sugere é profundamente problemático: que ser mulher e ser racional são coisas que precisam de ser separadas. Como se, para pensar correctamente, uma mulher tivesse primeiro de deixar de ser mulher.
Para a sorte ou azar do Manuel, eu sou feminista. Sim, sou feminista.
Acredito nos direitos das mulheres. Acredito no acesso à educação, ao conhecimento, às oportunidades e aos espaços de decisão. Acredito que as mulheres são capazes de desenvolver pensamento crítico, inteligência, competência e capacidade de liderança.
E não precisamos de “adereços” para provar isso.
Não é porque uma mulher é inteligente que, finalmente, pode ser considerada racional.
Ela já é. Eu sou mulher e sou racional.
E qualquer outra mulher que tenha acesso à informação, à educação e às mesmas oportunidades pode desenvolver capacidades semelhantes.
Aliás, eu própria não sou a mesma pessoa que era há cinco anos.
Há cinco anos, eu não sabia qual era o meu valor. O amor-próprio era uma simples palavra. Eu sorria para os demais e submetia-me a ser agredida de todas as formas, até em hasta pública.
Até àquele momento da minha vida, eu não tinha conhecimento e, à minha volta, as pessoas também não sabiam que existiam formas diferentes de resolver um problema tão profundo como aquele que vivi na minha própria pele.
E daqui a dois minutos também já não serei exactamente a mesma.
Nós aprendemos. Mudamos. Questionamos. Evoluímos. E tornamo-nos aquilo que vemos, ouvimos e fazemos.
A racionalidade não é exclusivamente masculina. A inteligência não tem género. O pensamento crítico não pertence a um sexo.
E talvez seja por isso que continuo a pensar numa outra questão.
Recentemente, estive num fórum internacional sobre a luta contra o feminicídio. Foram discutidas questões profundas, urgentes e necessárias.
Mas saí de lá com uma pergunta ainda maior:
O que acontece depois do fórum?
O que fazemos com a informação que recebemos?
O que fazem os activistas depois de saírem daquela sala?
A quem chega esse conhecimento?
Quais vidas são transformadas?
Quantas mulheres que nunca terão acesso àquela sala poderão beneficiar daquilo que foi discutido lá dentro?
E onde está a imprensa?
Por que razão, quando falamos dos direitos das mulheres, tantas discussões continuam confinadas a salas onde já estão pessoas previamente sensibilizadas para o problema?
Não questiono a existência de espaços fechados e inclusive sou grata por fazer parte, são necessários para garantir segurança, privacidade ou profundidade na discussão.
Questiono o que fazemos depois.
Porque a informação que não circula corre o risco de permanecer apenas informação.
Um fórum não deveria terminar quando as luzes se apagam e as pessoas deixam a sala.
Deveria ser o começo.
O conhecimento deveria chegar às escolas, às universidades, às comunidades, às famílias, às redes sociais, aos meios de comunicação, aos agressores e às vítimas.
Precisamos de transformar informação em educação.
Por isso, Manuel, não.
Eu não vou esquecer que sou mulher para pensar de forma racional.
Vou continuar a pensar justamente como sou: uma mulher que questiona, aprende, reflecte e se recusa a aceitar determinadas ideias apenas porque alguém decidiu que elas não devem ser questionadas.
E talvez seja esse o verdadeiro propósito da reflexão não aceitar uma ideia simplesmente porque alguém a disse, mas ter coragem suficiente para perguntar:
Homens, NOS MATAM POR QUÊ?
Por: Helena Ferreira ✍🏾
#NosMatamPorquê#Activismo#ViolênciaContraAMulher
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