África e sua aprisionada Mente

África e sua aprisionada Mente

Por Helena Ferreira 17de janeiro de 2026 Antes da escravização física, África foi alvo de algo ainda mais profundo: a negação da sua história, do seu pensamento e da sua humanidade. O continente africano não nasceu dependente, nem vazio de saber. Pelo contrário, foi berço de civilizações complexas, sistemas políticos organizados, pensamento filosófico próprio e modelos económicos ajustados às suas realidades. Do Egipto Antigo aos impérios do Mali, Songhai e Gana, do Reino do Congo às civilizações suaílis, África pensou o mundo antes de ser forçada a servir nele. Existiam universidades, como Timbuktu, redes comerciais transcontinentais, sistemas diplomáticos, ciência, arte e espiritualidade estruturada. Contudo, a colonização não se limitou à ocupação de territórios: ocupou narrativas. Reescreveu a história africana como sinónimo de ausência, atraso e subalternidade. É nesse contexto que surge a escravidão enquanto sistema não apenas de corpos, mas de consciências. Ao retirar aos africanos a noção do seu valor histórico e humano, tornou-se mais fácil impor correntes. O pensamento africano foi silenciado e substituído por uma lógica de inferiorização que, em muitos casos, persiste até aos dias de hoje. Questiono-me, por vezes, se alguma vez fomos ensinados a pensar a partir de nós mesmos. Procuro compreender como um continente inteiro pôde ser dominado durante tanto tempo. Desconhecemos o nosso próprio valor e não impomos limites, não apenas como indivíduos, mas também enquanto nações. São inúmeras atitudes dignas de questionar o actual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump; contudo, reconheço a importância que atribui à valorização dos cidadãos da sua própria nação, sintetizada no lema “Make America Great Again”. Os Estados Unidos demonstram ambição por crescimento e hegemonia, movendo-se em torno de um objectivo central: engrandecer ainda mais o seu país. E nós, feitos de pura história e identidade, até onde vai o amor pela nossa pátria? Até que ponto estamos dispostos a anular-nos para que outros ocupem as nossas terras, explorem os nossos tesouros, os nossos homens e mulheres, a nossa história e a nossa identidade? Até onde vai a nossa flexibilidade e em que momento a história começa, de facto, a mudar?Enquanto seres humanos, o egoísmo é frequentemente visto como uma fraqueza moral; contudo, pode também converter-se numa chave para o desenvolvimento colectivo, quando associado à protecção dos interesses nacionais. Bendita seja a nossa hospitalidade, mas que ela não se transforme em ingenuidade política ou económica. África precisa de lutar novamente. Lutar novas lutas, com a mesma garra que a primeira exigiu desta vez, armada de conhecimento, consciência histórica e soberania intelectual.

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