Por Helena Ferreira
15 de Janeiro de 2026
Durante décadas, a Groenlândia foi vista como um território distante, gelado e politicamente marginal no sistema internacional. Hoje, essa percepção já não se sustenta. A ilha passou a ocupar um lugar central na geopolítica global, não por acaso, mas como consequência directa das mudanças climáticas, da corrida por recursos estratégicos e da intensificação da rivalidade entre grandes potências. Como observa Klaus Dodds ao analisar o regresso da geopolítica clássica, os espaços antes considerados periféricos tendem a ganhar centralidade sempre que se tornam estratégicos para a segurança e a economia globais.
Os Estados Unidos tornaram-se uma grande potência porque seguem, de forma consistente, uma agenda orientada para a hegemonia. Estudam as teorias das Relações Internacionais, aplicam-nas na prática, testam estratégias, permitem-se falhar, ser criticados ou até malvistos, e ainda assim voltam a tentar. Essa lógica é bem explicada por John Mearsheimer, ao defender que, num sistema internacional anárquico, as grandes potências procuram maximizar o seu poder relativo para garantir a própria sobrevivência. A política externa norte-americana reflecte essa mentalidade estratégica, marcada por pragmatismo, adaptação e persistência.
Essa reflexão ganhou particular relevância a partir das declarações do actual presidente Donald Trump sobre a Groenlândia. Em contexto de sala de aula, ao analisarmos possíveis posicionamentos por parte das grandes potências, a Groenlândia foi amplamente debatida como um exemplo concreto de como a teoria se materializa na prática. Aquilo que, à primeira vista, poderia parecer uma declaração impulsiva ou irrealista revelou-se, na verdade, uma manifestação clara de uma lógica estratégica profundamente enraizada no pensamento geopolítico norte-americano. Mais do que uma proposta literal, tratou-se de um sinal político que evidenciou a importância estratégica atribuída ao território.
O degelo acelerado do Árctico reforça ainda mais essa centralidade. Relatórios recentes do IPCC demonstram que a região aquece a um ritmo superior à média global, abrindo novas rotas marítimas e facilitando o acesso a recursos naturais antes inacessíveis. Oran Young destaca que o Árctico deixou de ser apenas um espaço de cooperação científica para se tornar um palco de interesses económicos e estratégicos concorrentes, alterando profundamente a dinâmica das Relações Internacionais no Norte global.
A presença norte-americana na Groenlândia, através da base militar de Thule, insere-se nessa lógica de segurança e contenção. Trata-se não apenas de defesa territorial, mas de controlo estratégico do Árctico e de limitação da influência de actores rivais, como a Rússia e a China. Michael Byers sublinha que, no contexto árctico, soberania, segurança e recursos estão intrinsecamente ligados, o que ajuda a compreender por que razão a Groenlândia se tornou um activo geopolítico tão sensível.
A China, por sua vez, adopta uma abordagem mais discreta, porém consistente. Ao investir em investigação científica e projectos económicos no Árctico, demonstra compreender o valor estratégico da região a longo prazo. A chamada “Rota da Seda Polar” insere-se numa estratégia mais ampla de diversificação de rotas comerciais e de acesso a recursos estratégicos, o que gera preocupações legítimas entre as potências ocidentais.
A Rússia reforça esse cenário ao tratar o Árctico como uma prioridade estratégica. A militarização da região e o controlo de rotas marítimas demonstram que Moscovo não vê o Norte como periferia, mas como parte central da sua segurança nacional. Mesmo sem exercer controlo directo sobre a Groenlândia, a actuação russa contribui para transformar a ilha num elemento-chave de um tabuleiro geopolítico mais amplo e cada vez mais disputado.
No meio dessas disputas, a Groenlândia enfrenta um dilema profundo. O aumento do interesse internacional intensifica o debate sobre a independência e a autonomia económica, mas também levanta riscos significativos. A exploração de recursos pode impulsionar o desenvolvimento, mas ameaça o equilíbrio ambiental e pode aumentar a dependência externa. Como referem Barry Buzan e Ole Waever, regiões estratégicas tendem a concentrar dinâmicas de segurança, política e economia, tornando os processos de decisão particularmente complexos.
O percurso académico demonstrou-me de forma clara que o conhecimento molda as nossas perspectivas. Compreender as teorias das Relações Internacionais permite-nos interpretar acontecimentos que antes pareciam aleatórios ou desconexos de maneira mais crítica e estruturada. O estudo transforma a percepção, amplia o olhar e possibilita abordar temas anteriormente desconhecidos com maior profundidade, revelando que, na política internacional, poucas acções são verdadeiramente improvisadas.
Contudo a Groenlândia não é apenas um território estratégico, mas um símbolo das contradições do nosso tempo. As mudanças climáticas, enquanto ameaça global, criam simultaneamente novas oportunidades económicas e estratégicas. O gelo derrete e, com ele, aquecem as ambições geopolíticas. O futuro da Groenlândia será moldado pelas escolhas das grandes potências, mas também pela capacidade dos próprios groenlandeses de afirmarem a sua voz num sistema internacional em constante transformação.
Referências Bibliográficas
Mearsheimer, John J. – THE TRAGEDY OF GREAT POWER POLITICS
https://wwnorton.com/books/The-Tragedy-of-Great-Power-Politics/
Dodds, Klaus – GEOPOLITICS: A VERY SHORT INTRODUCTION
https://global.oup.com/academic/product/geopolitics-a-very-short-introduction-9780198831785
Byers, Michahjllel – WHO OWNS THE ARCTIC?
https://www.dundurn.com/books_/t22199/a9781553658602-who-owns-the-arctic-
Young, Oran R. – GOVERNING THE ARCTIC
https://www.routledge.com/Governing-the-Arctic/Young/p/book/9781138943963
IPCC – CLIMATE CHANGE 2023: SYNTHESIS REPORT
https://www.ipcc.ch/report/ar6/syr/
NATO – Arctic Security
https://www.nato.int/cps/en/natohq/topics_169152.htm
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